sábado, 21 de dezembro de 2013

Resgatando o que há de bom




UM MENINO CAIPIRA QUE SE FEZ MONGE
[DOM JOAQUIM GRANGEIRO DE LUNA]

NOTAS SOBRE O TIO MONGE
ESCRITAS POR PADRE LUNA

MISSÃO VELHA - 1979



Filho legítimo de Manuel Felipe de Luna Alencar e Raimunda Clara do amor Divino Grangeiro, nasceu a 8 de junho de 1881 em Missão Velha, Ceará, e foi batizado a 24 do mesmo mês e ano recebendo o nome de Salustinano. Por se achar o sítio em que nascera (sítio Logradouro) distante da Vila, cerca de uma légua, cursou uma escola particular primária, obtendo uma instrução rudimentar de 1893 a 1895 esteve empregado de caixeiro num pequeno estabelecimento de fazendas secas e molhadas, na vila, tendo casa, comida, roupa lavada e cinco mil reis ordenado mensal.

Em 1896 foi para o Tipi município de Aurora, ensinar o ABC aos filhos do irmão Antonio de Luna e a outras crianças da redondeza.Foi em outubro desse ano que faleceu seu velho pai, que ia completar 82 anos poucos meses depois, tendo ficado já órfão de mãe aos 10 anos.

Eram seus pais católicos fervorosos e deram uma educação verdadeiramente cristã aos filhos. Voltando à Missão Velha no fim daquele ano, 1896, devia agora cuidar da vida por si mesmo, pois sendo o penúltimo dos irmãos todos os outros já estavam casados, com exceção da última (mãe de Padre Luna) que tinha então 12 anos e ficara em casa de uma das irmãs.

Pensando então no futuro, resolveu ir para Manaus onde tinha um tio Rico que lhe prometera uma boa colocação Preparou-se para a viagem e foi a Barbalha despedir-se de uma tia. Esta, então lhe disse “não meu filho, você não pode ir para Manaus, esse meu irmão não tem religião”” (de fato estava até metido no espiritismo) único membro da família que se afastara da religião, você vai se empregar aqui em Barbalha. O Marido saiu com ele a uma das casas comerciais onde lhe disseram não precisarem de empregados.

Dali dirigiu-se à Casa Sampaio e irmãos, naquele tempo a maior não só da cidade Como talvez a maior e mais movimentada de todo Sul do Ceará. Chamado o chefe da Casa, o irmão mais velho dos três sócios, Este disse precisar mesmo de um rapaz para o Balcão e que o rapaz obtivesse uma carta de recomendação do vigário de Missão Velha. Vendo o movimento da casa e quase a certeza do emprego o rapaz se entusiasmou e julgou garantido o seu futuro. Voltou no mesmo dia à Missão Velha, obteve a carta de recomendação e a 14 de outubro de 1897 estava empregado. Tinha então 16 anos

Tendo feito a primeira comunhão aos 9 anos, inscreve-se logo no apostolado da oração, por inspiração de sua piedosa mãe que era muito devota do Sagrado Coração, confessa-se sempre às primeiras sextas feiras do mês. Tendo ele se empregado Na Vila após a morte de sua mãe, abandonara quase completamente a prática da religão. O Patrão não tinha religião e aos Domingos ainda que quisesse não podia ir à missa por ser dia de feira na vila e dia de maior movimento no comércio local. Assim cresceu afastado da casa paterna desde os doze anos e a viver entregue a si mesmo. Pode-se então avaliar qual tinha sido o estado da Alma de um Tal rapaz nessa fase crítica de sua vida, acompanhado muitas vezes de outros rapazes que não davam bons exemplos.

Empregado agora na Casa Sampaio, o sócio mais moço, católico fervoroso, aconselhou-se à assistência a `missa e a recepção dos sacramentos e mais tarde, convidou a se inscrever na conferência de São Vicente da qual era presidente. Foi assim que o rapaz recomeçou a freqüentar os sacramentos e a praticar os outros atos de religião, quase seis anos após os Ter abandonado quase por completo, tendo no entanto conservado a fé incutida pelos seus pais que eram profundamente crentes e fervorosos: não faltavam por própria culpa à missa nos dias de preceitos, apesar de morarem cerca de uma légua de distância da vila, e tendo de fazer o trajeto a pé. De Manhã Cedo, reunia-se toda família para a recitação de oração da manhã que constava do ofício de N. Senhora, em português que os pais sabiam de cor e outras orações à noite a recitação do terço quase sempre seguido da ladainha de N. Senhora, geralmente cantada aos sábados. Orações estas, feitas diante de um oratório com várias imagens entre as quais uma bela estátua de Nossa Senhora da Conceição à qual os pais tinham particular devoção.
Empregado agora na Casa Sampaio e irmãos o rapaz dentro de pouco tempo estava a par de todo movimento da casa em que havia de tudo, fazenda de toda espécie, ferragens, miudezas até livros, exceto comestíveis e bebidas. Comerciava não só a retalho Como também em grosso, com preços fixos e muita lisura, pelo que era muito procurada. Um ano depois o Salustinano obtivera confiança dos chefes e se tornara o primeiro caixeiro.

Funcionando na cidade um curso noturno de ensino secundário para rapazes no prédio do “ gabinete de leitura do qual era presidente o sócio mais moço da Casa Sampaio, este o convidou a se matricular nesse curso, o que fez logo que se empregara. Vindo pouco depois residir em Barbalha o abalizado professor José Joaquim Teles Marrocos, foi convidado para lecionar nesse curso o que fez com grande competência. Era estimadíssimo dos alunos não só por ser o mais idôneo do coro docente como pelo interesse que tomara por cada um deles, pela sua afabilidade respeitosa para com todos, pelo seu porte sempre digno e seus sentimentos religiosos. Amicíssimo do Padre Cícero Romão Batista do qual fora colega no seminário de Fortaleza, onde fizera todo o curso de Teologia e recebeu o diaconato, jamais comentou perante os alunos os fatos de Juazeiro relativos ao Padre Cícero e à Beata Maria de Araújo nem fez qualquer alusão desrespeitosa à autoridade diocesana. Era muito devoto da paixão do senhor e consta que rezava diariamente o Breviário. De Moral ilibada, era muito estimado pela sociedade Barbalhense tanto pelos seus dotes morais Como pelos intelectuais.
Ansioso para se instruir, o Salustinano trabalhava duramente o dia e estudava à noite e nos momentos livres do dia. Havia muita união e estímulo pelo estudo entre os rapazes alunos quase todos comerciários.

Associados a outros jovens barbalhenses, fundaram um grêmio l literário em que havia conferências relativas aos fins da instituição e assuntos da atualidade, menos políticos. As solenidades do grêmio eram abrilhantadas pela Banda de música composta dos próprios. Salustinano foi eleito seu primeiro secretário, já exercia o cargo de bibliotecário do ~ Gabinete de Leitura ~.
Gozando da estima e confiança dos patrões, o primeiro caixeiro da casa comercial Sampaio e irmãos.
Ao completar os vinte anos, refletindo sobre o futuro e o estado que devia abraçar, achou que essa vida no comércio não lhe convinha nem tampouco ficar nesse meio atrasado como era o interior do Ceará. Desejando ampliar os seus estudos e conhecer outras Terras, pensou, rezou e resolveu ingressar na Ordem Beneditina. O Que sabia a respeito dessa ordem era que havia lido na História Universal de César Cantu, relativo à mesma e as poucas notícias da restauração dos mosteiros do Brasil estampados no ~Estandarte Católico ~, edição do norte, sob a direção de D. Vanderilo Hospie•rre, do qual era assinante.

Antes de qualquer outro, comunicou o seu intento ao professor Marrocos pedindo sua opinião. Ele imediatamente se entusiasmou e disse “ ótimo, seu Salustinano, é uma Ordem Venerável de uma história gloriosa e que tem dado muitos Santos à igreja. E como lhe dissesse que queria ingressar no mosteiro do Rio de Janeiro, descreveu-lhe então a situação da Velha abadia donde se descortina vistas belíssimas sobre a cidade, a baia da Guanabara, a serra dos órgãos, etc e, disse mais ser amigo do abade. É Que o Marrocos havia residido por algum tempo no Rio de Janeiro, daí as suas relações com S. Bento. O Futuro Monge pediu-lhe, já que era amigo do Abade. Lhe escrevesse pedindo sua admissão no mosteiro, pois ninguém melhor do que ele para informá-lo a respeito do rapaz pretendente. Isto em fins de 1901. Para se Ter resposta de uma carta, naquele tempo, enviada para a Capital do País devia-se contar com cerca de dois meses.

Tendo o rapaz tomado a resolução de deixar o emprego e ingressar na Ordem Beneditina devia comunicá-la aos patrões. Estes desaconselham-lhe tal propósito dizendo que a sua saúde não suportaria os rigores de uma vida enclausurada em que o religioso nunca podia por os pés fora da clausura, e é submetido aos rigores da vida monástica, vida de jejuns prolongados e de silêncio e outras mortificações como sejam: flagelação e uso de silício, etc, Ele então respondeu “se ou outros podem suportar penso que também eu, que sou moço, poderei suportar.

Um Menino Caipira que se fez Monge [ Dom Joaquim Grangeiro de Luna ] Notas sobre o tio Monge, escritas por Pe. luna, Missão Velha - 1979


Os membros da família desaconselharam-no igualmente: “ você tem boa colocação, por que deixá-la para entrar para o convento para se
santificar não é necessário tornar-se frade. Os colegas de estudo e outras pessoas amigas: Rapaz você está maluco, ser frade não é mais do nosso tempo. Ele então tomou a resolução Se a resposta da carta disser venha que será bem recebido, haja o que houver, irei, se porém puser obstáculos, é sinal que não é vontade de Deus, desistirei. Nesta expectativa ansioso aguardava a resposta até que na Segunda metade do mês seguinte, Janeiro de 1902 recebeu carta do mosteiro. Abriu com as mãos trêmulas de emoção e leu: “Dom Abade recebeu a sua carta, aqui no Rio de Janeiro, não é possível a sua admissão porque não há vida regular no Mosteiro (havia então no
mosteiro, somente o velho abade) mas vá para o Mosteiro da Bahia, residência do Abade Geral, onde há noviciado, lá será bem recebido”

Agora de posse da resposta que seria bem recebido no Mosteiro da Bahia, tratou de preparar-se para a viagem. Entretanto os sócios da Casa Sampaio insistiram, até com promessas vantajosas que desistisse dessa idéia. Dos três só o sócio mais moço o encorajou dizendo pensasse bem e rezasse e se visse ser vontade de Deus que fosse, apesar de poder assegurar seu futuro no emprego que exercia.
Como os seminaristas barbalhenses que estavam de férias voltassem para o seminário em fevereiro, quis ir em companhia deles até Fortaleza. Combinaram partir dia 20, a despedida foi dolorosa, o próprio chefe da casa comercial chorou. Ele providenciou para que nada faltasse na viagem em que devia ser feita a cavalo até Senador Pompeu, cerca de 300 km de Barbalha e dali em diante de trem, ainda um dia de viagem até Fortaleza.

O Futuro Monge levava cartas de Recomendação do vigário de Barbalha. Padre Antonio Jataí, de Casa Sampaio e irmãos e também para o Barão Stuart, em Fortaleza, a fim de que este escrevesse ao presidente das conferências de São Vicente da Bahia, médico do exercito, Cel Medeiro, pedindo-lhe apresentar o rapaz ao abade geral. É que ele não tina tido nenhuma comunicação com o mosteiro da Bahia, apenas se apoiava na promessa da carta do Rio de Janeiro de ser bem recebido neste Mosteiro,
Dois dias depois de Ter chegado a Fortaleza embarcou para a Bahia no Vapor Desterro do Lorde Brasileiro, Tendo os dois seminaristas Um Menino Caipira que se fez Monge [ Dom Joaquim Grangeiro de Luna ] Notas sobre o tio Monge, escritas por Pe. luna, Missão Velha - 1979
Barbalhenses Francisco Silvano Sousa e Manoel Queiroz, acompanhado até o navio. Agora, após os abraços dos dois amigos e votos de felicidade, achava-se num meio estranho sem nenhuma pessoa conhecida. Tudo era novidade para ele. Era a primeira vez que se deitava em cama, pois o leito usual do nordeste, sobretudo do interior, é ainda hoje a rede. Parecia-lhe está de cabeça para baixo. Ainda mais enjoou terrivelmente. O Companheiro de Camarote perguntou-lhe se era a primeira vez que viajava a bordo e para onde ia, e como lhe dissesse que ia para a Bahia, interrogou ainda se ia estudar e tendo por resposta que ia estudar no Mosteiro de São Bento, disse ele chamar-se Américo Barreira e médico em alagoinha, Bahia, porém Natural de Baturité e que sua família era muito amiga dos beneditinos da Serra do Estevão.

Foi então que soube que havia beneditinos no Ceará. Ótimo companheiro não só de Camarote como de viagem foi assim a viagem do rapaz salvisado, tendo também desaparecido o enjôo logo no segundo dia. Ao desembarcar na Bahia disse então ao amigo, pois verdadeiramente ele o foi que queria ficar uns três ou quatro dias na cidade antes de apresentar-se ao Dom Abade. Ele o conduziu a uma pensão ã rua Chile, no centro da cidade e perto do Mosteiro e nesse mesmo dia seguiu para alagoinha.

Agora o rapaz, sem Ter pessoa alguma conhecida, devia guiar-se por si mesmo numa cidade grande e desconhecida com cerca de 200 mil habitantes, e procurar o Dr. Medeiros, que morava no bairro de Itapagipa, para entregar-lhe a carta do Barão de Stuart, e além disso, queria também conhecer um pouco a cidade antes de ingressar no Mosteiro. Saindo à rua viu um soldado do exército parado. Perguntou-lhe se estava de serviço e como respondesse que não, pediu-lhe o favor de acompanhá-lo até a casa do Doutor. Ele logo se prontificou de muita boa vontade. Ao passar o bonde para aquela direção ele deu sinal de parar e o futuro monge entrou e ele ficou no estribo. Assim visitou todos os lugares que queria, tendo de véspera combinado com ele a hora do encontro para o dia seguinte. No terceiro dia ao despedir-se dele, agradecendo-lhe o bom serviço que lhe havia prestado, quis recompensá-lo, ele porém de modo algum quis aceitá-lo. “não seu moço, de modo algum “. Perguntou-lhe de onde era e disse ser do estado de Pernambuco.

Combinado com o Dr. Medeiros o dia e a hora de se apresentarem ao Um Menino Caipira que se fez Monge [ Dom Joaquim Grangeiro de Luna ] Notas sobre o tio Monge, escritas por Pe. luna, Missão Velha - 1979
Dom Abade Geral, pelas 16 horas do dia 5 de março, dirigiram-se a pé para o Mosteiro, pois ficava perto da pensão e ao chegar à portaria, antes de tocar a campainha chamando o porteiro, disse o doutor, agora vamos rezar cinco padre-nossos, cinco ave-marias e glória em honra de N. senhora Auxiliadora para que você seja feliz.

Depois tocou a campainha e veio o 1 Irmão Gaudêncio que o conduziu ao Abade Geral, Dom Domingos. Este os recebeu amavelmente e informado do que se tratava e, apos Ter lido as cartas de recomendações, mandou chamar o Padre Prior. Dom Ulrico Sonntag o mesmo que respondera a carta dirigida ao Abade do Rio de Janeiro e aconselhara que o rapaz fosse para o Mosteiro da Bahia. E que Dom Ulrico estava fazendo companhia nessa ocasião, ao Abade Mercês Ramos a mandato de Dom Gerardo Van Caloen.

Agora no Mosteiro tudo era novidade para o rapaz caipira,. Nunca tido saído do Cariri. Jamais entrara num convento nem mesmo falara com religiosos. Apenas tinha visto de longe a três a três. Quando ainda pequeno, a dois religiosos que passaram por Missão Velha angariando donativos para umas obras no oriente, e outra vez a D. Maurício, ainda diáconoo, em 1889, que pernoitara em Barbalha de viagem ao Crato a mandado de Dom Gerardo por não poder ele fazê-lo em conseqüência de ma queda do cavalo quando se dirigia para o Cariri, acompanhado do próprio D. Maurício. Ë que naquele fim de século os religiosos que haviam em todo o estado do Ceará, eram só os padres Lazaristas na direção do Seminário de Fortaleza e os padres capuchinhos em Canindé. Os Beneditinos chegaram a Guaramiranga em outubro de 1889; e, quanto a religiosas, as únicas que haviam eram as irmãs de Caridade do Colégio da Imaculada Conceição, em Fortaleza.

Conduzido o rapaz à cela de hóspedes, foi lhe dito que sua admissão ao postulantado de pendia de Dom Gerardo Van Caloen que se achava na Europa, mas não tardaria a voltar. Não tomava parte nos atos da comunidade a não ser nas refeições comuns. Durante o recreio após as refeições, um dos noviços que eram sete, fazia-lhe companhia. A missa conventual e o oficio de Véspera assistia-os do Coro superior; o que mais impressionou agradavelmente foi a recitação em comum, do ofício divino e das vésperas cantadas.

A comunidade era pequena, constava do Abade Geral já idoso, de 78 anos, o padre prior, Dom Urico Santag, que era também mestre de noviços, Dom Vanderilo Hespierre, Vice prior redator do “Estandarte Católico”, organista e muito procurado no confessionário. Dom Agostinho Schmidt, há pouco chegado da Europa, sete noviços, todos alemães com exceção de um que era belga. D. Agostinho era padre zelador (Auxiliar do mestre de Noviços) mestre do canto, sacristão e prefeito dos irmãos conversos que eram cinco. Havia ainda um postulante para monge de couro, Baltazar vieira. Na Segunda Metade do ano, veio do mosteiro de São Paulo outro Postulante, Irmão Araújo, que entrara em Guaramiranga (Ceará) e fora Mandado para o Mosteiro de São Paulo.

Na incerteza de ser aceito na comunidade, por depender de Dom Gerardo, que estava na Europa, sem saber ao certo quando voltaria, essa incerteza e a lembrança dos amigos e parentes que deixara no Ceará e da despedida de todos eles e sobretudo do Grêmio Literário do qual era sócio Fundador e Secretário. Os quais à noitinha foram acompanhado com banda de música à frente, apresentar as suas despedidas e votos de boa viagem e de felicidade no Novo estado que ia abraçar; tudo isso acrescido da tentação do capeta – Que não via com bons olhos a resolução do rapaz, causou lhe tamanha saudade que alguns dias depois, resolveu voltar. Entretanto antes de se decidir definitivamente e comunicar a resolução ao Padre Prior, foi a igreja e diante do Santíssimo pediu, com fervor e os olhos em lágrimas, a nossa Senhora que lhe manifestasse a sua vontade a respeito, (desejando no íntimo que fosse para voltar, no entanto reconheceu de modo sensível que era sua vontade que ficasse. De posse desse sinal e confortado com a bondade e misericórdia do senhor, alegre, disse consigo mesmo: agora haja o que houver, fico

No dia seguinte à tarde, entra o prior na sua cela e lhe diz, “ Dom Abade Geral recebeu carta de Dom Gerardo dizendo que vai demorar na Europa e não sabe quando volta, por isso ele resolveu lhe dar o hábito de postulante depois de amanhã (20 de Março) antes das primeiras vésperas, prepare-se” O Rapaz não se pode então se conter de alegria. Tendo recebido o hábito de postulante, cerimônia que se fazia então com certa solenidade, incorporado agora à comunidade, adeus saudade. Nunca mais na sua longa vida de Monge, teve saudade do Mundo. Reconheceu ser esta a sua verdadeira vocação, apesar das dificuldades e cruzes que há também nos claustros e às vezes bem pesadas de que Deus, se serve para purificação e santificação de seus eleitos. Como Postulante devia suprir a deficiência de seus estudos, sobretudo de latim, com aulas diárias, juntamente com outros colegas de postulado e, ao mesmo tempo. Lecionar Geografia aos alunos da Escola Claustra da Abadia.

Tendo o Capitulo Geral, realizado em maio de 1903, no Rio de Janeiro, determinando a reintrodução da observância monástica na Abadia dessa cidade e a reabertura do noviciado, foram chamados três postulantes do mosteiro da Bahia, que chegaram ao Rio de Janeiro a 23 de junho. Vieram acompanhados dos irmãos conversos Domingos Lical e Gaudêncio e foram recebidos carinhosamente pelo abade Geral, Dom Domingos e por D. Gerardo Von Caloen.

A Comunidade ficou então constituída pelos dois abades Dom Majolo de Caigng, Prior. D. Vanderilo Hespiérre, Vice Prior. Dom Meintrado, professo simples, chegado de véspera de São Paulo, os três Postulantes (Irmão Vieira, Irmão Araújo e Irmão Luna) e os dois irmãos conversos. Dias depois chegaram do Mosteiro de Santa Cruz (Ceará) a chamado de Dom Gerardo os clérigos: D. João Pétero, D.Bento Faro, Dom Martinho Ataíde que mais tarde. Já diácono, obteve da Santa sé dispensa dos votos de religião. No dia 4 de julho chegaram do Mosteiro de São Paulo o clérigo Dom. Lourenço Lúmen (companheiro de profissão de D. Meintrado e o postulante irmão Laurê. A Vida Regular foi Logo reintroduzida na Abadia no dia mesmo da chegada dos postulantes e dois irmãos conversos 23 de Junho, 1903- com as primeiras vésperas da festa de São João e missa Conventual cantada n dia seguinte.

No dia 11 de julho, 1903- foram admitidos ao noviciado os quatro postulantes; Irmão Vieira, recebeu o nome de Mariano, Irmão Araújo de Jerônimo, Irmão Luna de Joaquim e o irmão Lauré o de Jõao Baptista. A cerimônia de Véspera, na sala do capítulo, como de costume, foi feita por Dom Gerado Van Caloen e, antes da missa de comunhão do dia seguinte receberam a coagula de noviços das mãos do Abade geral, Dom Domingos. Em maio do ano seguinte o irmão Mariano foi despedido e o irmão Jerônimo pediu para se agregar aos irmãos conversos, de sorte que só os dois últimos é que chegaram a professos como monge de coro o que fizeram a 31 de julho de 1904. A Profissão solene foi no dia 02 de agosto de 1907 na sala do capítulo, após o ofício de prima em presença de D. Abade Crisóstomo, por estar ausente D. Gerardo, a qual consistia, então somente além da intenção do professo, na leitura da carta.

Os dois neoprofessos receberam a primeira tonsura no dia 06 de Janeiro de 1906 por ser a profissão simples perpétua, n decorrer do curso de filosofia, as quatro ordens menores a primeira a 17 de junho de 1905, e a Segunda a 01 de novembro de 1905, a terceira a 22 de dezembro de 1905 a Quarta a 16 de março de 1907. O Sub diaconato a 21 de dezembro de 1907 (Na capela da tijuca), o diaconato a 19 de dezembro de 1908, e o presbiterado a 4 de janeiro de 1910, devia Ter sido em dezembro do ano anterior, mas Dom Gerardo achava-se então Ausente. Todas essas ordens sacras, desde a primeira tonsura, foram conferidas por D. Gerardo Van Caloen. No dia 06 festa dos reis, os dois neo sacerdotes celebraram as primícias, a primeira missa solene no altar MOR da abadia às nove horas e o segundo ao mesmo tempo 1 realizado, no altar de Nossa Senhora de Pilar. Ao evangelho pregou o Sr. Bispo de Maranhão, Dom Antonio Xisto Albano, que se ofereceu gentilmente para fazer. Ao Terminarem a Santa Missa os dois deram juntamente, do altar mor a bênção aos assistentes. Agora Monge o sacerdote e, o rapaz caipira, que é o que rabisca estas linhas, só lhe restavam só lhe restava infinitas graças a Deus por estas tão grande Mercê da misericórdia e bondade do senhor, graça que ele até aos vinte anos, jamais pensava ao menos na possibilidade da mesma.
MISERICICÓRDIAS DOMINI IN AETENRUN CANTABO
Ut In Omnibus Glorificetur Deus

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